Impressões de viagem
Logo ao se descer do avião e sair do aeroporto para o centro de Varsóvia, a capital da Polônia, o que chama a atenção, ao lado da estrada, são as construções, quase todas iguais, do tempo do socialismo
soviético, que durou até 1989. São muitos e muitos apartamentos, com pequenas janelinhas e com tamanho não maior que 50 m2.
A guia, uma polonesa, conta como era a vida nestes pequenos espaços, especialmente para os deficientes físicos. Como a propaganda comunista exaltava um povo “com saúde”, praticamente se escondiam os que se locomoviam com cadeira de rodas. Estas não passavam pelas portas dos elevadores e nem pelas estreitas escadas dos prédios. Assim os deficientes físicos ficavam forçosamente confinados em suas casas.
Ouvem-se histórias muito interessantes dos tempos do socialismo. A própria guia viveu aqueles dias, quando conseguir papel higiênico era um verdadeiro luxo. Comemorava-se verdadeiramente, porque para consegui-lo era necessário entrar na fila três dias antes. Como alguém tinha que trabalhar, esse alguém se obrigava a pagar outra pessoa para ficar na fila, que não se desfazia até nas noites de neve e temperaturas de 20 graus negativos. Pior é que, apesar de todos ganhar um pequeno salário e um tiket do governo para suprir suas necessidades básicas, não se comprava o que se gostava, mas o que havia para comprar.
Quando a McDonald instalou-se aqui, em meados dos anos 90, vinham excursões de todo país para conhece-la, porque aquilo representava uma espécie de grito de liberdade após tantas privações, inclusive de produtos do dia a dia, como sabão, leite e pão. A guia, Helena, lembrou que no final do comunismo ela e o irmão tinham como opção de lazer ver o que as lojas especiais (para quem tinha passaporte, ou seja, para os funcionários do governo) mostravam na vitrine n centro de Varsóvia. Ela sonhou por anos com uma boneca Barbie e o irmão com um brinquedo Lego. Mas só os funcionários graduados podiam comprar tais produtos, com dólar.
Apesar de praticamente não sofrer com a crise econômica recente, 13% da população economicamente ativa da Polônia está sem emprego. E a taxa mais alta da União Européia. Nos shoppings se vê gente elegante e bonita mas, segundo a guia, nas cidades mais afastadas há muito desemprego e pequenas fábricas fechadas. E este ano tem sido particularmente azarado para os poloneses. No começo do ano a elite do país, incluindo seu presidente e vice, morreu num acidente aéreo na vizinha Rússia. O verão que está terminando registrou temperaturas de até 40 graus e o inverno teve neve praticamente durante três meses. Há dois meses aconteceu um grande enchente, cujos reflexos ainda se fazem sentir.
Mas nada de tragédia é suficiente para tirar a beleza da Polônia e de sua gente. É um povo muito gentil com os estrangeiros e os brasileiros em especial. Varsóvia, apesar da má impressão inicial no caminho do aeroporto para o Centro, é de uma beleza impar. A arquitetura monumental soviética, apesar de monótona, está sendo quebrada por novas e modernas construções.
A alegria permanente dos manés só teve uma trégua, hoje. Foi durante a visita ao campo de concentração de Auschewicz, na Polônia. Não há como não se deprimir diante do que se vê naquelas sinistras construções, tipo galpão, e as câmaras de gás e crematórios. (R.S., de Cracóvia, Polônia)
Puxa, Raul, acho que esse é o texto mais longo que já li no seu blogue. Bem, deve haver muito, muito mesmo a ser descrito! Por favor, continue atualizando-nos sobre essas visitas maravilhosas. Ah, no finalzinho você escreveu (sobre os campos de concentração): “não há como se deprimir”. Imagino que você quisesse dizer “não há como NÃO se deprimir”. Grande abraço, Raul. Boas viagens!